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domingo, 24 de junho de 2012

Epica: interpretação e tradução detalhada de "Cry for the Moon"

Epica é uma banda holandesa de metal sinfônico caracterizada também por suas letras "fortes" quem falam principalmente de religião, amor, crenças, a razão da nossa existência e todas esas perguntas sem resposta. E como o assunto é a letra da música e uma possível interpretação dessa, vamos ao que interessa. Bem, começando pelo título, ele nos diz muita coisa e acredito que durante toda a música seu significado fica mais claro, não é uma música fácil de interpretar, assim como todas do Epica. 
Cry For the Moon - Em uma interpretação literal significa "Chorar pela lua", mas o sentido real não pode ser visto literalmente, pois "Cry for the moon" é uma expressão idiomática, e significa "Querer o impossível", querer aquilo que não se pode ter.

 

A música então começa:

"Siga seu senso comum
Você não pode se esconder
Atrás de um conto de fadas para todo o sempre
Apenas revelando toda a verdade nós podemos descobrir
A alma dessa fortaleza doentia para sempre
Para todo o sempre"

Primeiro, a música começa com o que parece ser uma represália, igual quando falamos com alguém que ela pode fazer isso, que ela continue fazendo, mas que não é o correto. Seguir o senso comum significa seguir algo que não tem respaldo científico, que é fruto do saber social, mantendo a mente aberta para todas as possibilidades, e seguir a que mais faz sentido, e não a que sugere uma realidade mais fácil.

O trecho também fala para não se esconder atrás de um conto de fadas, ou seja, seguir e viver baseando-se em histórias contadas (no caso, a Bíblia), e ignorando, fechando os olhos para qualquer falha que esta "história" possa ter, pois seguindo-a fica mais fácil viver, pois assim não é necessário aceitar o medo que a humanidade tem do desconhecido.

Seguindo:

"Mentes doutrinadas tão frequentemente
Contém pensamentos doentios
E cometem mais do mal
Que eles tanto pregam contra"

Acho essa parte fabulosa, pois por doutrinada aqui, não entendo uma mente esclarecida, mas sim como uma mente totalmente dominada por uma determinada doutrina, o que não considero boa coisa, já que acho que todos devemos ser abertos a tentar entender algo diferente para nós. A maioria dos males do mundo são resultado de uma mente doutrinada, cometem tudo pelo que são contra em favor, em proteção à permanência daquela única maneira de ver o mundo.

Estas mentes doutrinadas, que impõem a sua doutrina para os outros, sendo que nem mesmo eles a seguem.

"Não tente me convencer com mensagens de Deus
Vocês nos acusam de pecados cometidos por vocês mesmos
É fácil condenar sem olhar no espelho
Atrás dos palcos se abre a realidade"

Aqui chegamos a uma parte delicada da música, já que ataca diretamente as "mensagens de Deus", como não sendo suficientes para convencer o eu-lírico a se juntar à fortaleza. Eu entendo que o ataque que a música faz não é da crença em Deus, ou em uma força maior, mas sim à instituição religiosa.

Outra coisa que acho interessante nessa parte é "Atrás dos palcos se abre a realidade", pois sabemos que o palco é lugar para encenação, para a ilusão. É como dizer que tudo isso, motivo para tantos males, não é nada mais que uma encenação dos que estão por detrás do poder, por quem detém o controle. Assim, é uma manipulação das emoções das pessoas.

"Silêncio eterno chora por justiça
O perdão não está à venda
E nem a vontade de esquecer"

Aqui há quem defenda que a música possui como plano de fundo uma história verídica de um padre que estuprou uma criança na Holanda, e pagou aos pais para ficar em silêncio acerca do fato. Por isso "Silêncio eterno chora por justiça". Aqui a ideia do título fica muito clara, podemos entender então que justiça e algo que não se pode ter, é querer o impossível. Depois temos que o perdão não está à venda, nem a vontade de esquecer, que o dinheiro não compra tudo, apesar da Igreja ter pregado por tanto tempo o contrário.

"Virgindade foi roubada em tão tenra idade
E o exterminador perde sua imunidade
Abuso mórbido no Jardim do Éden
Onde a maçã ganha uma face jovial

Você não pode continuar se escondendo
Atrás de contos de fadas fora de moda
E continuar lavando suas mãos em inocência"

Aqui a história da música ter sido escrita sobre um padre pedófilo ganha força, já que a música diz: "Virgindade foi roubada em tão tenra idade...". O exterminador (o padre), comete um pecado e perde sua suposta imunidade. Abuso mórbido no Jardim do Edén, seria a igreja, pelo fato to estupro ter sido cometido por um padre. "No Jardim do Edén" essa interpretação ganha força quando avançamos para "Onde a maçã ganha uma face jovial", ora, a maçã na história bíblica tem relação com o pecado, e o pecado ganhou "uma face jovial", atrativa, no caso face é o rosto da menina que foi estuprada.

E a música termina brilhantemente afirmando que não há mais a possibilidade de continuar se escondendo atrás de histórias cheias de moral, mas que também são cheias de falhas e coisas sem sentido. Coisas estas que são ignoradas pelos seus seguidores, cujos alguns cometem atos doentios e se escondem atrás da religião, continuando a lavar suas mãos (sujas pelo ato criminoso) em inocência.

domingo, 15 de abril de 2012

Escrita: A tipografia gótica e sua identidade, através do tempo.


A tipografia sempre esteve recheada de muito simbolismo. Em suas diversas formas estéticas está inserido a cultura um povo que representa a filosofia e pensamento de uma instituição ou organização, e também os meios tecnológicos de reprodução de uma época.
Especificamente na tipografia gótica, ou “black letter” o simbolismo e ligação com o povo germânico fica muito mais evidente. Mesmo no início do século XX, quando a ordem era a modernidade, e a estética funcionalista começava a ditar as regras, mais tipos góticos com desenhos diferenciados eram desenvolvidos nas fundições alemãs e exportados para qualquer parte do mundo que tivesse algum resquício da cultura germânica. No Brasil, inúmeros livros, revistas e jornais foram impressos em tipos góticos e em alemão, especialmente no sul e São Paulo.
Para SHAW, Paul e Peter Brain, o termo “Blackletter” se refere aos antigos tipos  Old English ou góticos. A palavra Blackletter foi utilizada para descrever a relação estética entre a escuridão dos caracteres pesados e o branco das páginas nas escrituras da idade média. Já no século VIII, quando Carlos Magno assume o reinado na Europa o idioma e a expressão tipográfica alemã era visto como uma expressão popular, porém abafada pelas intenções de Carlos magno de reviver os ideais humanistas do velho mundo, expressadas na minúscula carolíngia. Uma visão estratégica do soberano que via na tipografia uma forma de identificação de seu reinado.
Com a chegada dos anos 1000, sinaliza também uma nova perspectiva para a Europa. As cruzadas abrem inúmeras possibilidades comerciais com diversos locais do mundo e mais que isso se amplia também os horizontes culturais europeus. As grandes catedrais começam a ser construídas e paralelamente também começavam as primeiras universidades, centros de efervescência cultural que fomentavam a produção de manuscritos e disseminação da cultura para todos. A influência estética da arquitetura gótica presente em diversos locais da Europa, bem como a necessidade da diminuição do espaço das escrituras, que até então utilizava as amplas e arredondadas formas da minúscula carolíngia influenciaram a forma da tipografia gótica que negra apertada  e angulosa.
A primeira a ser utilizada foi à gótica Textura, termo criado devido ao aspecto de tramas fechadas. Tinha uma disposição rígida, que diferenciava uma letra de outra somente por poucos traços. A gótica Textura era considerada um tipo de uso comum na Alemanha e países do norte da Europa. A bíblia de 42 linhas impressa por Gutenberg utilizava os tipos Textura em suas páginas.
 
Os tipos góticos que eram comumente utilizados na Alemanha se disseminam para toda a Europa,  ajudados pela facilidade e adaptação ao novo sistema de tipos móveis e pelos tipógrafos e gravadores germânicos que tinham o conhecimento técnico da imprensa e do novo sistema. Outros tipos Góticos como a Schwabacher ou Bastarda, considerada mais funcional e de execução mais ágil, devido a sua trajetória mais cursiva e menos rígida que a Textura, acaba se firmando com uma caligrafia popular.
A Fraktur teve certamente influência do barroco sobre sua estética que era uma fusão entre a forma da Textura e da Schwabacher. Uma das principais características eram os traços metade retos e metade curvos em sua forma. Os ornamentos nos tipos maiúsculos e nos traços ascendentes e descendentes eram uma pequena prova da influência  barroca.
Na Itália o renascimento fez florescer o ideal clássico da tipografia romana. Mesmo com toda a força das maiúsculas romanas, a gótica chamada Rotunda teve grande expressividade na Itália. A Rotunda tinha uma ligação muito mais forte com a passada uncial, tendo em sua forma os traços mais arredondados que deixavam as letras mais amplas e legíveis, em certos casos evidentes e ligação com as unciais. O caso da Itália reflete diferenças estéticas entre o norte e o sul da Europa, onde essas associações ficam evidentes.
O schwabacher ou bastarda, que originalmente era restrita a documentos na região norte da Europa, obtém seu status de importância na França, quando começam a serem impressos alguns livros, paralelamente também é utilizada na região da Bohêmia, Suiça e diversas regiões de predomínio germânico. A Rotunda além da Itália é também muito utilizada na Suíça.  Para SHAW, Paul e Peter Brain, esses quatro estilos de “blackletter” – Textura (gótica ), Rotunda ( semigótica), schwabacher e Fraktur, compreedem a categoria. Para TUBARO, Antônio e Ivana todas são classificadas de góticas.

A REFORMA
Quando no século XV Martin Lutero se revolta com a dominação de Roma e da influência papal que dominava a Europa, ele estava rompendo com séculos de influência e subordinação cultural. Mais do que uma revolta contra a igreja romana, ou a eliminação de um intercessor entre o homem e Deus ele demostravam o interesse que a igreja falasse a língua de todos. Lutero introduziu a massificação germânica, traduzindo do latim para o alemão vários hinos, peças baseadas na reforma e iniciou a tradução da bíblia. Além do texto em alemão que utilizava várias palavras em dialetos específicos da Alemanha, ele também elegeu os tipos góticos para expressar suas indignações.

O IDIOMA COMO EXPRESSÃO DE UM POVO
A questão sobre a própria identidade acompanhou durante séculos a vida dos alemães. É óbvio que existem diferenças claras entre a discussão e a afirmação de uma identidade e do uso político dessas questões como forma de manipulação. Essa noção de valorização e de grandiosidade do povo alemão é expressa na frase do poeta nacionalista Ernst Moritz Arndt,  que diz “a Alemanha está onde se fala alemão”, ou seja, a grande a Alemanha incluía regiões que não eram alemãs, como a Bohemia, Polônia, França, Luxemburgo, Suíça e até regiões de colonização mais longínquas como o próprio Brasil.  Esse ponto de vista mostra certa similaridade com o próprio idioma Grego, que identificava um povo, indo além das fronteiras pré-estabelecidas.
A partir do final do século XIX as fundições alemãs aumentam consideravelmente a produção de tipos góticos com diferentes desenhos. Mesmo artistas art-nouveau  de importância como Peter Behrens e Otto Eckmann desenharam tipos baseados na Fraktur. A reafirmação da soberania do povo alemão de certa forma sempre buscou sua representação na gótica Fraktur. Foi assim quando o exército de Napoleão foi parado pelas tropas alemãs, ou na guerra franco-prussiana de 1870,  na 1ª guerra mundial e por último quando Hitlet potencializou a força da tipografia Fraktur a serviço do estado totalitário nacionalista. De tempo em tempo a gótica e em especial a Fraktur foi politizada como “o tipo da Alemanha”. Alguns estudiosos acham que os nazistas acabaram tirando a vida dos tipos góticos, quando os associaram com o nazismo.

 
A TIPOGRAFIA GÓTICA NOS MEIOS EDITORIAIS DE CURITIBA
Os imigrantes alemães que vieram para o Brasil no final do século XIX trouxeram muito de sua cultura. Os alemães em especial trouxeram o conhecimento das técnicas de impressão e a inclinação por essa profissão. Curitiba,  recebeu um grande número de imigrantes entre 1850 e 1900. Diferente de outros povos vindos da Europa eles se estabeleceram em diferentes regiões da cidade se misturando aos habitantes locais ( com exceção dos Menon itas, que se estabeleceram em colônia no Boqueirão). Comprovando o raciocínio deste artigo, para os germânicos assim como o idioma, a escrita, a tipografia  e os meios de comunicação eram um meio de resguardar sua cultura. No período de 1890 e 1940 existiram inúmeros jornais editados em alemão e impressos com tipos góticos. Dentre eles; Der Kompak, Der Pionier, Der Beobachter, Deutsche Blatter, Die Neue Heimat, Deutsche Polka, Carnaval Anzeige Thalia, Ilustriertes Unterhaltensblatt, Die Zeit, Deutschen Schule dentre outros. O número de jornais editados em alemão foi muito maior do que outros jornais destinados a outros imigrantes que tinham maior número do que os alemães da cidade. O jornal era um importante meio para deixar os alemães a par dos acontecimentos da terra natal, mas também traziam informações do que acontecia no Brasil e na cidade, estabelecendo um vínculo com a região.
As tipografias e impressoras de Curitiba nessa época viviam um período de crescimento, alavancada pela qualidade gráfica dos trabalhos que era reconhecida em todo o território nacional. Nas dependências da mais importante impressora da época, a Impressora Paranaense se falava praticamente o alemão, devido ao grande número de alemães ou descendentes que tinha em seu quadro de funcionários. A estética de anúncios publicitários dos meios editoriais também foi influenciada pela tipografia gótica, já que empresas que desejavam atingir esse público tinham de estabelecer um vínculo cultural com ele, informando sobre seus produtos em alemão e graficamente com tipos góticos.
A tipografia gótica é um dos símbolos do povo germânico e assim como ela inúmeras outras contêm essa importante carga de simbolismo.  Logicamente o assunto desse artigo é inesgotável, até porque a relação do povo alemão com a tipografia gótica não acontece da noite para dia, mas é uma evolução e uma maturação que caminha por séculos e séculos, onde aspectos tecnológicos, culturais e políticos determinam sua trajetória. Porém ao mesmo se torna oportuno em um momento que cada vez mais tentamos desvendar o que cerca a construção de marcas fortes, imagens ou identidades de instituições até mesmo nações.

 
TEXTURA
Característica mais pesada, de disposição extremamente rígida onde traços repetidos verticais formam as letras com poucas diferenças evidentes entre elas. A angulosidade é acentuada pela terminação em forma de diamante na parte superior.
SCHWABACHER OU BASTARDA
Tinham uma característica mais cursiva, onde era utilizada como caligrafia popular. Sua estética deriva muito da necessidade de escrita mais funcional e de execução muito mais rápida e ágil, rompendo a rígida verticalidade da Textura e suavizada com ornamentações e traços curvos.
FRAKTUR
A Fraktur é uma fusão entre a Textura e a Schwabacher, com uma influência da estética barroca, denotada pelos ornamentos aplicados às letras maiúsculas e a união entre traços retos e curvos de sua forma.
ROTUNDA
A tipografia gótica italiana tem em sua forma estética uma proximidade muito grande com os tipos unciais, devido ao aspecto mais curvo e arredondado que tornam as letras mais amplas e legíveis.